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Tudo isso é muito sedutor para aquele que, não tendo nada, vê,
antecipadamente, a bolsa do rico passar ao fundo comunal, sem cogitar
que a totalidade das riquezas, postas em comum, criaria uma miséria
geral ao invés de uma miséria parcial; que a igualdade, estabelecida
hoje, seria rompida amanhã pela mobilidade da população e a diferença
entre aptidões; que a igualdade permanente de bens supõe a igualdade
de capacidades e de trabalho. Mas, esta não é a questão. Não está em
minhas intenções examinar o lado positivo e o negativo desses
sistemas. Faço abstração das impossibilidades que acabo de citar e
proponho olhá-los de um outro ponto de vista que, parece-me, ainda não
preocupou a ninguém e que se relaciona à nossa área de cogitações.
Os autores, fundadores ou promotores de todos esses sistemas, sem
exceção, não visaram senão a organização da vida material de uma
maneira proveitosa a todos. A finalidade é louvável,
indiscutivelmente. Resta saber se, nesse edifício, não falta a base
que, só ela, poderia consolidá-lo, admitindo-se que fosse praticável.
A
comunidade é a abnegação mais completa da personalidade. Ela requer o
devotamento mais absoluto, pois cada pessoa deve abnegar de sua
pessoa. Ora, o móvel da abnegação e do devotamento é a Caridade, isto
é, o amor ao próximo. Entretanto, é preciso reconhecer que a base da
caridade é a fé; que a falta de fé conduz ao materialismo, e o
materialismo ao egoísmo. Um sistema que, por sua natureza, requer para
sua estabilidade virtudes morais no mais supremo grau, haveria que ter
seu ponto de partida no elemento espiritual. Pois muito bem, ele não o
leva absolutamente em conta, já que o lado material é a sua finalidade
exclusiva.
Muitas dessas concepções são fundamentadas em uma doutrina
materialista confessada alta e bom som, ou sobre um panteísmo que não
passa de uma espécie de materialismo disfarçado. Isso quer dizer que
são enfeitadas com o nome da fraternidade, mas a fraternidade, assim
como a caridade, não se impõe nem se decreta, é algo que existe no
coração e não será um sistema que a fará nascer, se ela aí já não se
encontra alojada. Ao mesmo tempo em isto ocorre, o defeito antagônico
à fraternidade arruinará o sistema e o fará cair na anarquia, já que
cada pessoa quererá tirar para si a melhor parte. A experiência aí
está, diante de nossos olhos, para provar que eles não extinguem nem
as ambições nem a cupidez.
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