Foi num mundo assim, sem petróleo, sem chips, sem anestesia, e onde as instituições democráticas ainda estavam em formação, que Alan Kardec trouxe à luz uma obra cujo valor a história ainda não soube reconhecer, não apenas por tratar com seriedade de temas normalmente desprezados pelos religiosos e pensadores do seu tempo, mas principalmente por incorporar aspectos da verdade universal presentes noutras tradições religiosas, científicas e filosóficas, mas tidas como ingênuas ou exóticas pelo pensador europeu vitoriano.

O curioso é que esse caráter transdisciplinar de O Livro dos Espíritos não foi produto da pesquisa de campo de um estudioso de tradições orientais, como vemos acontecer muito nos dias atuais, mas da comunicação mediúnica de espíritos desejantes de reviverem o cristianismo primitivo – berço de verdades então esquecidas – que despertaram para o interesse dos religiosos ocidentais temas tão diversos como reencarnação, vida em outros planetas, intercomunicação com espíritos, corpos espirituais, realidade extra-física e muito mais.

O Livro dos Espíritos - e o Espiritismo como um todo - foi grande precursor de um tempo que ainda virá, onde, superados os limites que a tecnologia acabou por nos impor, veremos a verdade não mais como uma projeção de imagens numa tela de cinema a que assistimos passivamente, mas como a própria imagem da vida captada na retina de nossa alma.

Estudá-lo, apreciá-lo e cultivá-lo como um vigoroso marco de transformação do pensamento religioso ocidental é indispensável para aqueles que buscam a verdade.

Reconhecer sua transcendência, não obstante suas raízes oitocentistas, é forçoso para qualquer estudante de mente aberta.

O Livro dos Espíritos é um guia para quem deseja transpor a porta do século XIX para o XXI. Apenas se faz necessária a ressalva de que não o transformemos numa camisa de força conceitual, de modo a que, dentro de 100 ou 200 anos, seja necessário que venha um novo Kardec nos libertar de nossos dogmatismos.

É quase desnecessário dizer que, uma vez atravessada a porta, ainda haverá um longo caminho a percorrer.