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Questão
de Solidariedade
Marcel Benedeti
A noite
estava muito fria. Era uma das noites mais frias do inverno de 2006. Não admira
que nas televisões e outdoors diversas campanhas de solidariedade eram
veiculadas a fim de estimular as pessoas a dividirem com os menos afortunados os
seus casacos e cobertores.
O frio era
intenso e o inverno parecia que seria um dos mais rigorosos dos últimos anos.
Apesar dos apelos da mídia em favor dos desfavorecidos, muitos ainda enfrentavam
as baixas temperaturas sem qualquer proteção. Algumas não sobreviviam.
Naquela
noite, depois de assistir à televisão e sentir-se tocada pelos apelos de
solidariedade, uma ouvinte de nosso programa semanal de rádio pensou em querer
ajudar alguém que passasse frio e, não perdendo tempo, selecionou um cobertor e
daria ao primeiro necessitado que encontrasse.
Parecendo
que o destino já houvesse escrito algo para ela, a mulher ouviu alguns sons do
lado de fora de casa. Era um senhor que vivia de recolher entulhos nas ruas para
vender como sucata. Ele arrastava uma pequena carroça abarrotada de retalhos de
papéis, diversas latas de alumínio e outros materiais recicláveis, que eram o
seu ganha-pão. Como companhia um cão fiel o cercava.
O homem
estacionou o seu veículo em um canto da rua e retirou do meio dos entulhos um
pedaço de papelão, que a mulher percebeu que seria usado como um cobertor.
Forrando o chão com outro pedaço, à guisa de um colchão, o homem se enrolou todo
e adormeceu.
O cão, por
sua vez, adquiriu uma postura de guarda. Sentado de prontidão, preparado para
defender o seu amigo que o alimentava e o amava e sua carga valiosa, ele estava
disposto a enfrentar qualquer perigo. Parecendo desconfiado de tudo, ele olhava
para todos os lados a fim de avaliar qualquer possibilidade de perigo ao seu
amigo adormecido. Por vários minutos o cão permaneceu de prontidão, mas o sono
também o pegou. Seus olhos pareciam pesados demais e, parecendo não mais tão
atento, acabou por adormecer ao lado do amigo. |